Criados “à caneta”, contornos de Mato Grosso do Sul carregam história de luta, cultura e sonhos

Campo Grande (MS) – Antes de ser criado, o sul de Mato Grosso como um estado autônomo já era sonhado. Divisão, criação, fundação. Nenhuma dessas palavras consegue definir de forma abrangente os fundamentos e anseios que pautam o nascimento de Mato Grosso do Sul.

Apesar de ser fruto de um decreto, as fronteiras delimitadas a caneta pelos burocratas governamentais já carregavam dentro de si o DNA econômico, social e cultural que já movia as populações sulistas desde o fim do século XIX.

Mais que o “conflito ideológico” entre sul e norte, a divisão, ou criação, foi levada a cabo por motivos econômicos que beneficiariam ambos os estados, o que de fato ocorreu. E neste “cometa temporão” embarcaram as vidas e desejos de 2,3 milhões de pessoas que habitavam os estados irmãos.

Divisão do Estado
Primeiro governador de MS, Harry Amorim assina termo de posse – Foto: Roberto Higa/Acervo Histórico

Em um bate papo com o historiador e professor Douglas Alves da Silva, especialista em Culturas e História dos Povos Indígenas pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, é possível avaliar como, quando e porquê surgiram os sentimentos de efetivação de um estado sul-mato-grossense e as razões desse sonho tornar-se real, afinal, tão tardiamente.

Como era Mato Grosso antes da divisão?

O estado, antes da divisão, tinha um território muito extenso. A economia, de base agrícola, tinha sua maior arrecadação na região sul. Porém, politicamente, o norte possuía mais representantes na capital Cuiabá.

E como era a região sul? O que marcou o início do movimento que dividiu o Estado?

Apesar de a capital ser na cidade de Cuiabá, desde o fim do Império e início do período republicano cidades do sul já se destacavam. Corumbá era a principal. Desde que foi fundada, ainda no período do Brasil Colonial, se tornou o principal entreposto desta região. Corumbá ganha importância com a navegação internacional do rio Paraguai, que era o terceiro maior porto da América Latina até 1930.

Divisão do EstadoPor volta de 1889, políticos corumbaenses divulgaram um manifesto que pedia a transferência da capital de Mato Grosso para a cidade de Corumbá, algo que não deu resultados naquele período. Este ato, porém, pode ser considerado como marco inicial do movimento divisionista.

Na década de 1920 Campo Grande já era considerada a capital econômica de Mato Grosso devido à exportação na estação ferroviária e posição geográfica. Quais motivos levaram a isso?

Dois acontecimentos foram decisivos para a mudança do eixo de liderança comercial de Corumbá para Campo Grande: a instalação da Circunscrição Militar, o hoje chamado Comando Militar do Oeste e a chegada dos trilhos e da estação ferroviária. Esses fatos fizeram com que muitos migrassem para Campo Grande, trazendo novas ideias, anseios e ideologias, mas também potencializando seu crescimento econômico e comercial.

É curioso frisar que estes trilhos que iam rumo a Corumbá tinham um traçado original que previa sua passagem por Cuiabá.

Quais foram os motivos que levaram a divisão de Mato Grosso?

Podemos elencar os seguintes motivos divisionistas: a atuação da Companhia Matte Larangeira e o maior desenvolvimento econômico da região sul, facilitado num primeiro momento pelo porto em Corumbá e depois pela facilidade da estrada de ferro que fazia a ligação São Paulo – Campo Grande – Corumbá.

No entanto, devemos elencar também os motivos do governo federal da época da ditadura militar:estimular a ocupação territorial e o desenvolvimento regional e estreitar relações com os países vizinhos, Paraguai e Bolívia.

Qual envolvimento do Regime Militar nesta questão?

Com a legislação básica para a criação de novos estados e territórios (1974) o governo ditatorial estabeleceu regras para o surgimento de novas unidades federativas. Esse fato motivou o ressurgimento de discussões referentes a limites, fronteiras e mesmo sobre reorganização de estados.

A Liga Sul-Mato-Grossense, presidida por Paulo Coelho Machado, retoma suas ações políticas voltadas à causa divisionista, enquanto o governador do Mato Grosso, José Garcia Neto, fazia campanha contrária aos anseios separatistas.

Quantos municípios Mato Grosso possuía? Quem ficou com a maior área? 

Mato Grosso tinha à época 93 municípios e 1.231.549 quilômetros quadrados. A lei dividiu o Estado e deixou Mato Grosso com 38 municípios e Mato Grosso do Sul com 55. Mato Grosso ficou com a maior área: 901.420 quilômetros quadrados.

De que forma o crescimento sócio-econômico do Sul com a pecuária e a exploração da erva-mate marcaram o movimento?

A economia do sul do então Mato Grosso era baseada no latifúndio, a grande propriedade agrícola. Da mesma forma a exploração dos ervais, por meio da Companhia Matte Larangeira, também se destacava. Ambas as situações promoveram a criação de uma elite forte economicamente, com seu poder político emanando da grande quantidade de terras que dominavam.

Com o passar do tempo essas elites do sul buscaram maior participação nos desdobramentos políticos do Estado. A busca por este espaço, já ocupado pelas elites do norte, somada a fatos como a Revolta Constitucionalista de 1932, acabam por alimentar os anseios dos sulistas, fazendo com que criassem a Liga Sul-Mato-Grossense, através da qual passam a fazer uma espécie de lobby político em busca da separação e constituição de um novo estado.

Sobre este movimento de 1932 é interessante frisar a participação do sul do Mato Grosso em apoio aos paulistas, que pleiteavam, entre outras coisas, um governo constitucional para o Brasil, já que vivíamos neste período o chamado governo provisório de Getúlio Vargas, que conquistou o poder por meio da Revolução de 1930.

Foi então instituído em Campo Grande uma espécie de governo revolucionário, com sede no prédio da Maçonaria Novo Horizonte de Maracaju (localizado na Rua Calógeras), motivo pelo qual este governo de curta duração (menos de três meses) ficou conhecido como Estado de Maracaju, sob a liderança de Vespasiano Martins.

É de se esperar que a divisão possua defensores e críticos. Quais são os argumentos favoráveis e críticos que se ouvia na época ou até hoje?

Os argumentos que se ouviam eram de que o sul sustentava o norte, já que era mais desenvolvido economicamente e concentrava maior arrecadação de impostos. Também se falava que o sul era abandonado pelo norte, pois o governo estadual não daria o devido suporte estrutural aos municípios sulistas. Também era recorrente o discurso de que a divisão iria levar o norte à falência e tornar o lado sul um estado rico, devido à concentração de arrecadação. Por outro lado, já próximo da divisão de fato, levantou-se a ideia de que o processo faria com que ambos os estados progredissem economicamente, mesmo que precisassem contar com apoio do governo federal pra isso.

Houve um consenso da população na época? 

A população ficou dividida. No norte eram contrários à divisão, seguindo seus líderes políticos, ao mesmo passo em que a população do sul era partidária da criação de um novo estado. No entanto, essa opinião da população era informal: não podemos deixar de ressaltar aqui que, apesar de ter ocorrido, a divisão acabou ocorrendo sem consulta à população, atendendo anseios políticos apenas.

Reportagem: Alexander Onça
Fotos: Roberto Higa / Arquivo Público de MS

Chegada das autoridades no Teatro Clauce Rocha para posse do governador Harry Amorim Costa. Armando Falcão, Cássio Leite de Barros e Rangel Reis. Ano 1979

 

Chegada das autoridades no Teatro Glauce Rocha para posse do governador Harry Amorim Costa. Armando Falcão, Cássio Leite de Barros e Rangel Reis em 1979

 

 

 

Início da construção do Parque dos Poderes.Sentido Av.Mato Grosso.Ano1981

 

Início da construção do Parque dos Poderes. Sentido Av.Mato Grosso.

Rodoviária de Campo Grande. Ano 1978

Rodoviária de Campo Grande – Ano 1978